Tupy — de Joinville ao coração dos motores do mundo

Uma reportagem da série “Gigantes de SC”

Em 1938, em Joinville, três sócios — Albano Schmidt, Hermann Metz e Arno Schwartz — montaram uma fundição para fabricar conexões que o país ainda não produzia. A semente de indústria virou parque fabril em 1954 e, poucos anos depois, já abastecia a nascente cadeia automotiva brasileira: em 1957, veio o primeiro contrato com a Volkswagen. Não era só metal; era método — e uma vocação para aprender tecnologia e transformá-la em produto com assinatura catarinense.

A partir daí, a Tupy escolheu investir onde poucos ousavam. Criou o Centro de Pesquisas Tecnológicas em 1973 e, em 1976, iniciou a produção de blocos e cabeçotes de motores. O passo técnico elevou a companhia a outro patamar: dominar ligas, processos e tolerâncias finas que, mais tarde, a colocariam na fronteira do CGI (ferro vermicular/compacted graphite iron) — material que tornou motores mais eficientes e duráveis.

A virada global veio em 2012. Depois do anúncio em 2011, a Tupy comprou duas fundições no MéxicoCifunsa Diesel (Saltillo) e Technocast (Ramos Arizpe) — num negócio de cerca de US$ 439 milhões. A internacionalização ancorou a presença na América do Norte e consolidou a empresa como referência mundial em blocos e cabeçotes.

Nos anos seguintes, a empresa ampliou o mapa e o portfólio. Em 2019/2021, recebeu aval concorrencial e integrou as operações de ferro fundido da Teksid no Brasil (Betim/MG) e em Portugal (Aveiro/Funfrap) — reforço de capacidade e de clientes na Europa. Em 2022, concluiu a aquisição da MWM do Brasil por R$ 855 milhões, entrando com mais força em motores e soluções de energia/descarbonização. É a mesma lógica de sempre: subir na cadeia de valor sem perder eficiência industrial.

Hoje, a Tupy fabrica a partir de Joinville (SC) e opera plantas em São Paulo (SP), Betim (MG), Saltillo e Ramos Arizpe (México) e Aveiro (Portugal) — com engenharia e usinagem próprias e mais de 240 centros de usinagem. O desenho dá velocidade a clientes globais e mantém Santa Catarina no centro da decisão técnica.

Os números recentes explicam a musculatura. 2024 fechou com R$ 10,7 bilhões de receita líquida e a maior geração de caixa operacional da história ( R$ 1,4 bilhão), mesmo num ciclo de menor demanda para veículos comerciais e off-road no exterior. A companhia também reportou EBITDA recorde no ano, efeito de eficiência e do desempenho da MWM. É resiliência de quem aprendeu a operar com escala, câmbio e ciclos.

Em 2025, a estratégia continuou a render frutos comerciais: a empresa fechou contrato para fornecer blocos de 13 litros em ferro CGI ao mercado norte-americano de caminhões Classe 8, produzindo na unidade de Ramos Arizpe (México) — um acordo estimado em cerca de R$ 200 milhões/ano. É a prova de que posicionamento industrial e material avançado abrem portas onde a exigência é máxima.

Se as cifras contam, as pessoas explicam. Em 1959, nasceu a Escola Técnica Tupy, celeiro de fundidores, técnicos e engenheiros. Nas linhas de moldagem e usinagem, há gente que mede, desgaseifica, valida microestrutura, calibra processos e entrega a precisão que um motor pede. Reconhecer essa história é reconhecer décadas de trabalho coletivo — de laboratório, chão de fábrica e sala de aula — que fizeram da Tupy uma das vozes técnicas do mundo a partir de Santa Catarina.

Linha do tempo — marcos essenciais
1938 — Fundação em Joinville (SC).
1957 — Primeiro fornecimento de autopeças para a Volkswagen do Brasil.
1973–1976Centro de Pesquisas; início da produção de blocos e cabeçotes.
1998 — Aquisição da fundição Cofap (Mauá/SP).
2000–2003 — CGI sai do P&D para a produção em escala.
2012Aquisição das plantas no México (Saltillo e Ramos Arizpe).
2019–2021Teksid: integração das operações em Betim (MG) e Aveiro (PT).
2022Tupy conclui a compra da MWM do Brasil (R$ 855 mi).
2024R$ 10,7 bi de receita e geração de caixa recorde (~R$ 1,4 bi); EBITDA recorde.
2025Contrato para blocos CGI 13L nos EUA, produção no México.

Mais que uma cronologia de conquistas, a trajetória da Tupy mostra o que Santa Catarina constrói quando une ciência de materiais, processo e gente qualificada. Fica o reconhecimento — aos pioneiros, aos técnicos de hoje e às parcerias globais — por uma obra que saiu de um forno em Joinville e chegou ao coração de motores espalhados pelo mundo.

Sobre o autor

Compartilhar em: