TURISMO, CONECTIVIDADE E MODELOS DE GESTÃO
Artigo de Ernesto São Thiago, fundador da Destino Náutico Consultoria

O crescimento do turismo internacional no Brasil em 2024 e 2025 é um fato. Em 2025, o país recebeu 9,29 milhões de turistas estrangeiros, alta de 37% sobre 2024. Atribuir esse resultado quase exclusivamente ao Governo Federal é uma leitura simplificadora. Os dados mostram que o avanço decorre de fatores econômicos, conectividade e, sobretudo, de modelos de gestão, com Santa Catarina como exemplo emblemático.

O primeiro vetor foi o câmbio. A desvalorização do real tornou o Brasil mais competitivo, somada à demanda reprimida do pós-pandemia. No plano regional, a reorganização econômica da Argentina sob Javier Milei ampliou o poder de compra dos argentinos, hoje o maior contingente de turistas estrangeiros no país, favorecendo destinos próximos, especialmente o Sul.
Mas potencial só se transforma em fluxo quando há execução. No transporte aéreo, Santa Catarina avançou de forma consistente. O Aeroporto Internacional de Florianópolis superou 1 milhão de passageiros internacionais em 2025, impulsionado por voos diretos regionais e conexões estruturantes. Entre janeiro e novembro, o estado recebeu 651.980 turistas internacionais, crescimento de 56,8% sobre 2024. Esse desempenho não é casual. Ele reflete a atuação técnica e coordenada do Governo de Santa Catarina, em especial da Secretaria de Estado do Turismo, sob a liderança de Catiane Seif, responsável pela promoção internacional, articulação com o trade e posicionamento estratégico do destino.
A esse esforço somou-se a política de infraestrutura e conectividade conduzida pela Secretaria de Portos, Aeroportos e Ferrovias, chefiada por Beto Martins, que integrou turismo, logística e concessões aeroportuárias, criando as condições práticas para que os voos internacionais se materializassem. A parceria com a gestão privada do aeroporto completou o ciclo, transformando potencial em fluxo real.
No turismo marítimo, o contraste entre modelos de gestão é ainda mais revelador. Dados da Brasilcruise indicam 235 escalas de cruzeiros nas temporadas 2024/2025 e 2025/2026 em Santa Catarina. Balneário Camboriú cresceu e se consolidou como principal destino do estado por operar sob modelo privado, ágil e orientado ao mercado, mesmo utilizando fundeio e sistema de tenders. Em sentido oposto, estruturas dependentes de gestão pública encolheram: Itajaí perdeu protagonismo relativo, Porto Belo sofreu forte redução de escalas e Florianópolis praticamente saiu do circuito regular de cruzeiros.
Há, contudo, um caminho alternativo e estratégico. São Francisco do Sul recebe poucas, porém altamente qualificadas escalas de longo curso e ultraluxo, com navios menores, alto gasto médio e forte impacto reputacional. É um modelo que privilegia qualidade em vez de volume.
Nesse contexto, Florianópolis vive um reposicionamento coerente. A cidade se afirma cada vez mais como destino de turismo gastronômico, com uma cena de alta gastronomia em franca consolidação, valorização dos produtos locais e experiências autorais. Esse perfil atrai visitantes mais qualificados e compatíveis com a escala urbana e ambiental da ilha.
Por isso, Florianópolis deveria adotar deliberadamente o modelo de São Francisco do Sul no turismo marítimo, focando em cruzeiros de longo curso e ultraluxo, com poucas escalas, operação leve e integração com marinas e receptivos de alto padrão, evitando o turismo de massa. Trata-se de uma estratégia alinhada à preservação ambiental, à infraestrutura disponível e ao posicionamento premium do destino.
O recado dos números é claro. Onde houve gestão profissional, coordenação institucional e foco estratégico, o turismo cresceu. Onde prevaleceram estruturas rígidas e decisões tardias, o movimento encolheu. Santa Catarina mostra que o futuro do turismo não está no volume indiscriminado, mas na qualificação da demanda. Florianópolis ainda pode converter seu enorme potencial em resultados concretos, desde que faça as escolhas certas.
