Urubici: a cidade onde o frio vira atração e a natureza faz silêncio por você

Série “Cidades de SC”

Foto: Pref Urubici

Urubici é uma cidade que parece construída para quem gosta de respirar fundo. No coração da Serra Catarinense, com paisagens de montanha, campos de altitude, araucárias e cachoeiras que surgem do nada, o município ganhou fama nacional como um dos destinos mais desejados do inverno no Brasil. Mas Urubici não é só turismo de frio: é também agricultura forte, tradição de interior, história recente de colonização e um modo de vida marcado por distâncias longas, clima severo e uma relação direta com a terra. Com 10.834 habitantes (Censo 2022) e uma área territorial de pouco mais de 1.021 km², é um município de baixa densidade, que combina pequenas comunidades rurais com o crescimento acelerado do setor de hospedagem e gastronomia.

A história de Urubici é relativamente jovem quando comparada às cidades litorâneas. Segundo o IBGE, as primeiras incursões na área ocorreram em 1915, quando pioneiros chegaram para abrir caminhos e iniciar o cultivo das terras férteis do Vale do Rio Canoas e do Rio Urubici. A partir desse processo, o município foi se estruturando como ponto estratégico no planalto, sustentado pelo trabalho agrícola e pela ocupação gradual das áreas de serra, que exigiam adaptação ao frio e ao relevo.

Foto: Pref Urubici

E é justamente esse território que define o que Urubici tem de mais característico. O município abriga alguns dos pontos mais altos habitados do Sul do Brasil e é conhecido por registrar temperaturas extremas. No topo do Morro da Igreja, a 1.822 metros de altitude, fica o cartão-postal da Pedra Furada, uma formação rochosa em forma de portal que virou símbolo do turismo serrano. A visita é tão concorrida que exige agendamento obrigatório, justamente por estar dentro do Parque Nacional de São Joaquim e em área com controle de visitação.

Urubici também é uma cidade que combina o “extraordinário” com o cotidiano simples do interior. A Prefeitura destaca que o município é chamado de “Terra das Hortaliças”, sendo um dos maiores produtores de hortifrutigranjeiros de Santa Catarina, além de ter importância no cultivo de maçã, especialmente a variedade gala. Isso explica por que, por trás das pousadas, chalés e restaurantes sofisticados, existe uma realidade agrícola forte que sustenta boa parte da economia e mantém a identidade local ligada ao campo.

Ao mesmo tempo, o turismo transformou a cidade. Nos últimos anos, Urubici consolidou uma imagem de destino premium de inverno, com forte presença de hotéis, cabanas e experiências voltadas ao conforto e à natureza. Esse crescimento impulsionou renda, ampliou serviços e criou uma cadeia econômica ligada à hospitalidade — mas também trouxe desafios típicos de destinos em rápida expansão: valorização imobiliária, pressão sobre estradas rurais e necessidade de ordenamento ambiental para preservar exatamente o que atrai o turista. O resultado é uma cidade com economia híbrida, onde agricultura e turismo dividem protagonismo e se retroalimentam.

O diferencial de Urubici, porém, está no que ela entrega de forma quase inacreditável: belezas naturais em escala grandiosa. É o caso da Cascata do Avencal, com queda de cerca de 100 metros, despencando em um penhasco semicircular que impressiona tanto pela altura quanto pelo contraste de rocha e vegetação. O local virou parque e recebe visitantes o ano inteiro, com mirantes e estruturas de visitação.

Outro símbolo é a Serra do Corvo Branco, estrada de montanha famosa pelo corte profundo nas rochas, considerado um dos maiores do Brasil, com 90 metros de profundidade, e altitude aproximada de 1.470 metros. Além de ser uma obra impressionante, o trajeto é um roteiro visual que resume o que Urubici oferece: estrada estreita, curvas, paredões, vento e uma paisagem que mistura aventura e contemplação.

Urubici também tem o que poucas cidades conseguem oferecer: natureza e espiritualidade no mesmo espaço, como em grutas, mirantes e pontos de contemplação que costumam atrair turistas tanto por fé quanto por beleza cênica. E a experiência, geralmente, é feita em ritmo lento — entre trilhas, cafés coloniais e o famoso “turismo do frio”, em que o objetivo principal é ver geada, sentir o vento e passar a noite perto de lareira.

Na culinária, Urubici se consolidou como um destino que valoriza o que é local e o que é serrano: carnes, trutas, pinhão, massas, fondues e cafés coloniais viraram parte da experiência turística. Ao lado disso, a base agrícola garante a presença constante de produtos frescos: hortaliças, frutas e derivados que fazem da gastronomia local uma mistura entre o simples e o sofisticado, entre o alimento que vem da roça e a apresentação de restaurante.

O município faz parte do chamado Caminho das Neves, rota turística associada às cidades onde a geada, o frio e, em alguns anos, a neve, se tornam espetáculo. É esse cenário que transforma Urubici em uma espécie de “capital emocional” do inverno catarinense: um lugar em que o clima não é obstáculo, mas a atração principal.

Urubici é, no fim das contas, uma cidade que aprendeu a transformar paisagem em identidade. Nasceu do esforço agrícola em terras altas e frias, cresceu em torno de uma população pequena e dispersa, e hoje se projeta nacionalmente como destino de natureza e frio. Entre o Morro da Igreja e a Cascata do Avencal, entre a roça e as pousadas, ela mostra o que a Serra Catarinense tem de mais raro: a capacidade de fazer o visitante se sentir pequeno diante da natureza — e, ao mesmo tempo, completamente acolhido pelo lugar.

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