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Venezuela, antes e depois de Chávez/Maduro: economia e política em contraste

De uma democracia pactuada e dependente do petróleo nas décadas de 1960–90, a Venezuela passou por um ciclo de bonança com Chávez, colapso econômico e institucional sob Maduro e, mais recentemente, uma estabilização frágil baseada em dolarização parcial, petróleo sob sanções e um ambiente político classificado como “não livre”.

Antes de 1999: democracia estável, economia vulnerável

O Pacto de Punto Fijo (1958) sustentou uma das democracias mais estáveis da região, mas a economia seguiu extremamente dependente do petróleo. A combinação de queda do preço do barril, endividamento e políticas erráticas levou à crise dos anos 1980/90 — com o Caracazo (1989) marcando a ruptura social. Esse quadro abriu espaço para a ascensão de Hugo Chávez.

1999–2013 (Chávez): boom do petróleo, expansão social e distorções

Com a alta das commodities, o governo financiou programas sociais de grande escala (Missões) e, entre 2003 e 2007, a pobreza caiu fortemente. Em paralelo, controles de preços e câmbio, intervenção estatal e conflitos com o setor privado criaram desequilíbrios estruturais que se tornariam agudos quando o ciclo do petróleo virasse.

2013–2020 (primeiros anos Maduro): recessão profunda, hiperinflação e êxodo

Com a queda do petróleo e a manutenção de controles e subsídios, o PIB encolheu por anos consecutivos; 2020 registrou contração de –30%, segundo a Cepal. O país atravessou hiperinflação (2016–2021), com duas redenominações adicionais da moeda em 2018 e 2021 para cortar zeros do bolívar. A produção de petróleo, que girava em 3 milhões bpd no fim dos anos 1990, desabou ao piso histórico em 2020 antes de se recuperar parcialmente. O resultado social foi um êxodo de 7,9 milhões de pessoas.

2021–2025: dolarização parcial, inflação ainda alta e petróleo sob sanções

A dolarização de fato e a flexibilização de alguns controles deram fôlego à atividade e derrubaram a inflação a patamares “altos, porém não hiperinflacionários”. Mesmo assim, projeções do FMI apontam inflação muito elevada em 2025, e séries independentes mostram reaceleração neste ano. No petróleo, a produção caminha perto de 0,9–1,1 milhão bpd — muito abaixo do auge —, com oscilações ligadas às sanções e licenças de exceção (ex.: GL 44A, de abril/2024, que determinou “wind down” de transações de petróleo; e em out/2025 Washington autorizou Shell/Trinidad a avançar no campo de gás Dragon).

Política: da contestação eleitoral ao fechamento do espaço cívico

Instituições vêm sendo progressivamente aparelhadas: tribunais, órgão eleitoral e forças de segurança são apontados por entidades independentes por restringir direitos e reprimir opositores. A eleição de 28 de julho de 2024 terminou disputada e sem publicação de resultados detalhados por mesa, fato criticado por observadores internacionais; desde então, denúncias de prisões e violência política se acumularam. Em 2025, a Freedom House classificou o país como “Não Livre” (13/100) e a HRW relatou repressão após o pleito.

Indicadores-chave (linha do tempo)

  • Petróleo (bpd): ~3,0–3,4 mi (fim dos 1990) → piso ~392 mil (jul/2020)~900 mil–1,1 mi (2025).
  • Inflação: hiperinflação 2016–2021; 2025 ainda tríplice dígito (FMI/estimativas).
  • Pobreza: queda acentuada nos anos de boom (2003–2007) → salto recorde em 2021 (94%)2023 ainda >50% de pobreza (ENCOVI).
  • Migração: 7,9 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos.

O que explica a trajetória

Especialistas convergem em três vetores:

  1. Choques do petróleo + gestão macro: dependência extrema da renda petroleira amplificou ciclos; controles de preços/câmbio e expansão fiscal prolongada minaram oferta e ancoragem.
  2. Instituições e Estado de Direito: deterioração da governança reduziu previsibilidade para investir e corroeu freios e contrapesos.
  3. Sanções e isolamento: desde 2019, restrições financeiras/energéticas agravaram gargalos; alívios pontuais via licenças seguem condicionados a avanços democráticos.

Perspectivas

No curto prazo, a economia depende de (i) acesso a divisas e estabilidade cambial, (ii) licenças externas para energia, e (iii) contenção inflacionária num contexto sem dados oficiais regulares. No médio prazo, a recuperação sustentável exigiria recompor instituições, garantir segurança jurídica e reformar o marco do petróleo para atrair capital. Sem normalização eleitoral e melhora em direitos civis, analistas veem limites para um novo ciclo de crescimento.

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