Arrecadação recorde, contas no vermelho
Receita Federal fechou 2025 com alta real de arrecadação, mas o Brasil segue pressionado por déficits projetados e por uma dívida que continua subindo — o que ajuda a explicar por que o juro não cai.
O governo federal encerrou 2025 com uma arrecadação gigantesca — R$ 2,88 trilhões, chegando a cerca de R$ 2,93 trilhões em valores corrigidos pela inflação, com ganho real de 3,65% sobre 2024, segundo os números divulgados pela Receita Federal. O dado, por si só, chama atenção: é muito dinheiro entrando. Só que a manchete econômica que realmente assusta é outra: mesmo com a arrecadação em alta, o país segue gastando mais do que consegue sustentar e fechou as contas no vermelho — e, pior, o próprio Tesouro trabalha com déficits também para 2026 e 2027.

Na prática, é o retrato do nó fiscal brasileiro: quando a arrecadação sobe, parte vem do crescimento da atividade, mas parte também pode vir de aumento de carga, mudança de regras e aperto na cobrança. O contribuinte sente no caixa. E o problema é que, sem um reequilíbrio estrutural do gasto, o aumento de receita vira apenas combustível para um Estado mais caro — sem entregar, na mesma proporção, um salto de eficiência em serviços públicos.
Pelo desenho do regime fiscal atual, as metas são verificadas com uma “banda” de tolerância: o próprio arcabouço prevê intervalo de menos 0,25 ponto do PIB e mais 0,25 ponto do PIB para checar o cumprimento do resultado primário. Isso dá margem legal e técnica para acomodar oscilações do ano, além de regras específicas que podem afetar a conta, como tratamentos diferenciados para precatórios em determinados exercícios. O ponto é que existe diferença entre “fechar dentro do permitido” e “resolver o problema”: o déficit pode até caber na engenharia legal, mas a realidade econômica continua cobrando.
E ela cobra caro. Quando o mercado enxerga dívida crescendo e incerteza fiscal, o juro tende a ficar alto. O próprio Anexo de Metas Fiscais do PLDO aponta uma trajetória de Dívida Bruta do Governo Geral em patamar elevado e com avanço nos próximos anos — projetando 78,5% do PIB em 2025, 81,8% em 2026 e 83,6% em 2027. Esse é o tipo de número que pesa nas decisões de investimento, no custo do crédito e na vida real de quem financia uma casa, um carro ou tenta tocar uma empresa.
O governo sustenta que a estratégia fiscal precisa mirar a estabilização da dívida ao longo do tempo e, no papel, o planejamento já desenha metas de resultado primário crescentes para o Governo Central a partir de 2026 (0,25% do PIB em 2026; 0,50% em 2027; 1,00% em 2028; 1,25% em 2029). Só que entre a meta e o mundo real existe um abismo: para que a dívida pare de crescer, não basta arrecadar mais — é necessário gastar melhor, rever prioridades e, principalmente, encarar despesas que viraram intocáveis na política.
O recado de 2025, portanto, é duro e direto: arrecadação forte não garante contas saudáveis. Se o país continuar projetando déficits mesmo com aumento de receitas e pressão tributária, o resultado previsível é a manutenção de juros elevados — um dos maiores freios ao crescimento e à renda. O passado está posto. A pergunta que fica é simples, e incômoda: em 2026 e 2027, o Brasil vai insistir em tapar buraco com imposto — ou finalmente atacar o que faz a despesa pública crescer mais rápido do que a economia consegue sustentar?
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