Brasil “falido”? Como empresa, já teria quebrado — como país, a conta chega de outro jeito

Dívida bruta encosta em R$ 10 trilhões e o setor público segue sem superávit primário consistente; quando o Estado gasta mais do que arrecada, a fatura aparece em juros altos, crédito caro e serviços piores.

O Brasil está falido? A resposta honesta é: sim e não. Sim, se você olhar para o país com a lógica de uma empresa. Não, porque um país não “fecha as portas” como uma companhia privada — mas, justamente por isso, as consequências podem ser ainda mais danosas e prolongadas para a população.

Se o Brasil fosse uma empresa, o diagnóstico seria brutalmente simples. Uma companhia que opera com uma dívida gigantesca e, ao mesmo tempo, não consegue pagar suas contas correntes — isto é, não fecha o mês no azul — cedo ou tarde entra em colapso. No setor público, esse “fechar o mês” atende pelo nome de resultado primário: quando receitas superam despesas antes do pagamento dos juros. Sem superávit primário recorrente, a dívida não para de crescer. E, quando a dívida cresce com juros altos, ela cresce rápido.

Os números dão dimensão do problema. O Banco Central registra que a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 78,7% do PIB em 2025, o equivalente a cerca de R$ 10 trilhões. No mesmo período, o BC aponta que o resultado nominal (primário + juros) foi deficitário em R$ 1,062 trilhão em 2025, evidenciando o peso do custo financeiro da dívida em um ambiente de juros elevados. E quando o déficit nominal permanece alto, a mensagem para o mercado é direta: o país precisará continuar se financiando — e caro.

“Mas país quebra?” Em tese, não do jeito clássico. Um país imprime moeda, rola dívida, aumenta impostos, corta investimento, muda regras, posterga. Só que cada uma dessas saídas tem um preço social. E esse preço quase nunca é pago por quem decide: é pago por quem vive do trabalho, do salário, do pequeno negócio e do crédito.

É aqui que entra o ponto central: quando a trajetória fiscal se deteriora, a conta chega por quatro caminhos bem conhecidos. Primeiro, juros mais altos por mais tempo, porque o risco sobe e a inflação tende a ficar mais difícil de controlar. Segundo, crédito mais caro para empresas e famílias, travando investimento e consumo e dificultando geração de emprego. Terceiro, serviços públicos piores ou mais caros, porque o orçamento fica comprimido entre despesas obrigatórias e o serviço da dívida. Quarto, a ameaça permanente de perda de confiança, que normalmente se traduz em câmbio pressionado e ainda mais inflação.

Há quem tente vender essa situação como “normal” — como se o país pudesse conviver indefinidamente com dívida crescente, despesas pressionadas e ausência de reformas estruturais. Não pode. Todo sistema tem limite. E, quando o limite é ultrapassado, não acontece um “apagão” instantâneo como numa empresa que fecha as portas; acontece algo pior: um processo lento de empobrecimento relativo, com crescimento fraco, baixa produtividade e dependência crônica de auxílio estatal.

Para encerrar a parte mais dura — e mais verdadeira — desta reflexão: o governo não paga a dívida. Governo não gera riqueza; quem gera é a sociedade. Quem paga a dívida é o cidadão, via impostos, via inflação, via juros mais altos, via crédito restrito e via perda de qualidade de serviços. É simples assim.

O Brasil precisa de um freio de arrumação. Precisa voltar a tratar superávit primário como objetivo estrutural, não como slogan. Precisa de um Estado melhor, não maior: mais eficiente, menos desperdiçador, com prioridades claras e coragem para cortar o que não entrega retorno social. Sem isso, o país não “quebra” como empresa — mas corre o risco de entrar num beco sem saída onde a população paga cada vez mais para receber cada vez menos.

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