Chega de normalizar a pobreza: o Brasil precisa trocar o “mais do mesmo” por emprego e dignidade

Programas sociais são necessários, mas não podem virar destino permanente de dezenas de milhões de pessoas; com riqueza natural e capacidade produtiva, o país precisa criar um caminho consistente para gerar trabalho, renda e esperança — com menos burocracia, menos custo e mais solidez.

A realidade deve ser tratada como realidade. E o principal: precisamos encontrar saídas para construir um novo momento — uma nova realidade. Programas sociais são necessários, existem em praticamente todos os países e têm função clara: proteger quem está vulnerável e evitar que a pobreza vire miséria. O problema é quando o programa deixa de ser ponte e passa a ser estrada sem saída.

Hoje, o Brasil convive com um dado que deveria constranger qualquer governo, qualquer Congresso e qualquer elite política: milhões de famílias dependem do Bolsa Família, cujo valor mínimo segue em R$ 600. Em janeiro de 2026, eram 18,7 milhões de famílias beneficiárias, segundo informe oficial do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Isso significa dezenas de milhões de brasileiros vivendo sob o guarda-chuva de um auxílio que deveria ser provisório para a maioria — não um modo de vida para uma parcela estrutural do país.

E não é só renda: é também energia básica para cozinhar. O próprio governo descreve o programa Gás do Povo como voltado a mais de 15 milhões de famílias, “beneficiando cerca de 50 milhões de pessoas”, garantindo a recarga do botijão de 13 kg. A mensagem por trás disso é brutal: existe uma fatia gigantesca do país para quem cozinhar é uma preocupação de política pública.

Ao mesmo tempo, o Brasil é continental, rico em recursos naturais, com um povo que trabalha, empreende e se reinventa. O velho ditado continua verdadeiro: “aqui, tudo que se planta dá”. É justamente por isso que aceitar a estagnação social como normal não pode ser opção. A pergunta que precisa guiar o debate é simples: por que um país com tamanho e potencial convive com dependência tão ampla de transferências?

Parte da resposta está nos gargalos que travam o crescimento e a produtividade — e que, na prática, travam o emprego. O diagnóstico é conhecido: burocracia cara, sistema tributário pesado e confuso, insegurança regulatória, custo elevado do capital e regras que frequentemente criam mais conflito do que cooperação entre capital e trabalho. O resultado é um país que apaga incêndio o tempo inteiro, mas raramente constrói uma estrutura de solidez que sustente crescimento de longo prazo.

O Brasil até avançou em indicadores recentes de pobreza, o que precisa ser reconhecido. O IBGE mostrou redução relevante entre 2023 e 2024: a proporção de pessoas em pobreza caiu para 23,1% e a extrema pobreza para 3,5% em 2024, com destaque para o peso dos programas sociais na contenção da miséria. O Banco Mundial também aponta tendência de queda na pobreza em projeções recentes. Mas o próprio dado do IBGE é um alerta: sem benefícios sociais, a extrema pobreza teria sido muito maior, o que reforça o ponto central — os auxílios seguram o chão, mas não constroem a escada.

É aqui que entra a obrigação dos políticos que nos representam: construir programas e condições para uma mudança drástica no destino econômico do país, com foco específico em criar emprego — emprego de verdade, com renda suficiente para vida digna, previsibilidade e capacidade de planejar o futuro. Isso exige escolhas objetivas.

Menos burocracia para abrir e manter empresas, para contratar e para investir. Menos custo invisível na tributação e menos insegurança que transforma empreendedor em refém de interpretação e litígio. Regras trabalhistas e relações capital-trabalho que protejam quem trabalha, mas que também reduzam o ambiente de guerra permanente que encarece a contratação e estimula informalidade. E, sobretudo, um Estado que pare de ser um labirinto para quem quer produzir.

Não se trata de “acabar com programas sociais”. Trata-se de recolocá-los no lugar correto: rede de proteção e ponte de transição, enquanto o país faz o que precisa ser feito para gerar oportunidades, elevar produtividade e aumentar salários reais. A ambição de um Brasil grande não pode ser administrar a pobreza com eficiência. Precisa ser reduzir a pobreza com crescimento sustentado.

Nas últimas décadas, convivemos com mais do mesmo. O Brasil precisa de um novo modelo: menos improviso, mais solidez. Menos dependência, mais autonomia. O povo brasileiro é forte o suficiente para encarar esse desafio — desde que a política pare de vender atalhos e comece a entregar caminhos.

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