GUERRA ELEVA UREIA E TESTA O AGRO BRASILEIRO

Ernesto São Thiago, advogado

A guerra iniciada na sexta-feira no Golfo já começa a pressionar o mercado global de fertilizantes e levanta dúvidas sobre o impacto no agronegócio brasileiro. Antes do conflito, a ureia negociada para entrega no Brasil estava entre US$420 e US$470 por tonelada CFR portos brasileiros. Após a escalada militar e o aumento do risco logístico no Golfo, as indicações de mercado passaram para acima de US$500/t, refletindo menor oferta, fretes mais caros e prêmios de risco no transporte marítimo.

O Brasil importa praticamente 100% da ureia que consome, cerca de 7,7 milhões de toneladas por ano. Nas estatísticas oficiais, o Irã responde por cerca de 2,5% das compras brasileiras, mas estimativas de mercado indicam que 1,3 a 1,4 milhão de toneladas, ou aproximadamente 17% a 18% do consumo nacional, têm origem iraniana indireta, muitas vezes reexportada por portos do Golfo como Omã. Com a guerra, parte dessa oferta desaparece do mercado internacional.

No plano microeconômico, fertilizantes representam um dos principais custos variáveis da produção agrícola. Quando os preços sobem rapidamente, a relação de troca piora e o produtor precisa vender mais grãos para comprar o mesmo volume de insumos. Em alguns casos, agricultores reduzem a adubação ou buscam substituições parciais para manter a rentabilidade da lavoura.

Do ponto de vista macroeconômico, porém, choques de fertilizantes costumam ter um efeito mais amplo. Como a alta de custos atinge produtores em todo o mundo, o custo marginal da produção agrícola global sobe. Isso tende a reduzir a oferta futura e pressionar as cotações internacionais de grãos. Episódios semelhantes ocorreram durante o choque energético de 2022, quando fertilizantes caros contribuíram para a valorização de commodities agrícolas.

A demanda brasileira por ureia concentra-se principalmente entre agosto e outubro, período em que produtores compram insumos para o plantio da safra de soja, iniciado em setembro. O consumo volta a crescer entre janeiro e março, com o plantio da safrinha de milho. Se o conflito persistir e continuar afetando a logística do Golfo, o choque de preços pode atingir justamente o período de compras da próxima safra.

Especialistas apontam três possíveis cenários. No primeiro, os custos agrícolas sobem, mas os preços de soja e milho acompanham o movimento, preservando a rentabilidade do produtor. No segundo, as commodities sobem menos do que os insumos, comprimindo margens. No terceiro, menos provável no caso brasileiro, fertilizantes muito caros poderiam reduzir o uso e limitar a produtividade.

Por enquanto, o mercado trabalha com uma dinâmica intermediária. O agronegócio brasileiro tende a enfrentar custos mais elevados, mas também pode se beneficiar de preços internacionais mais altos caso o aumento de fertilizantes reduza a oferta global de alimentos nos próximos ciclos agrícolas.

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