Irã trava negociações, Guarda Revolucionária amplia poder e cessar-fogo entra em limbo
Relatos de bastidores apontam esvaziamento de Mohammad Bagher Ghalibaf nas tratativas, enquanto Teerã endurece exigências, mantém o impasse sobre o bloqueio naval dos EUA e aprofunda sinais de disputa interna.

O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã continua de pé, mas a perspectiva de uma negociação efetiva para encerrar a crise no Oriente Médio está cada vez mais distante. Em vez de avanço diplomático, o cenário desta quinta-feira, 23 de abril de 2026, é de paralisia, radicalização e disputa de poder dentro da própria estrutura iraniana. A extensão da trégua anunciada por Donald Trump não produziu distensão real: o bloqueio naval americano segue em vigor, Teerã se recusa a retomar conversas substanciais sem a retirada dessa pressão e os sinais vindos da capital iraniana apontam mais para desorganização interna do que para coordenação política.
O principal símbolo desse impasse é Mohammad Bagher Ghalibaf. Nas últimas semanas, o presidente do Parlamento iraniano havia assumido um papel central nas tratativas com Washington, liderando a delegação de Teerã nas negociações de Islamabad e se consolidando como um dos rostos mais visíveis da frente diplomática iraniana. Em 12 de abril, após mais de 20 horas de conversas no Paquistão sem acordo, o próprio Ghalibaf afirmou que os Estados Unidos não haviam conseguido conquistar a confiança da delegação iraniana, confirmando o grau de desconfiança que já contaminava o processo.
Agora, porém, o problema parece ir além da distância entre Teerã e Washington. Relatos divulgados em 23 de abril por veículos que acompanham a crise afirmam que Ghalibaf teria deixado o posto de principal negociador ou perdido espaço decisivo após interferências da Guarda Revolucionária Islâmica, a IRGC. Essas informações ainda circulam mais como relatos de bastidor do que como fato plenamente confirmado por fontes oficiais independentes, mas ganharam força suficiente para impactar até os mercados e reforçar a leitura de que a cadeia de comando iraniana está sob disputa.
A hipótese que ganha corpo é a de um rearranjo interno em favor da ala militar mais dura. Reportagens publicadas nos últimos dias indicam que a IRGC vem ampliando sua influência sobre as decisões estratégicas do regime, esvaziando civis e figuras consideradas mais pragmáticas. Nesse ambiente, nomes ligados ao núcleo militar, entre eles Ahmad Vahidi, passaram a ser associados ao endurecimento da posição iraniana e à pressão contra qualquer negociação que pareça concessão em meio à guerra. Mais do que uma troca de nomes, o que está em curso é uma mudança no centro de gravidade do poder em Teerã: a diplomacia perde terreno, e os militares ganham veto prático sobre qualquer saída política.
Esse movimento ajuda a explicar por que as negociações entraram em limbo. Mesmo com a trégua prorrogada por Trump em 21 de abril, a Casa Branca deixou claro que não pretende aliviar o bloqueio naval contra portos iranianos, instrumento que Washington vê como peça central de pressão. Do lado iraniano, a resposta foi endurecer ainda mais: Teerã passou a condicionar qualquer retomada séria das conversas ao fim desse bloqueio, classificando a medida como incompatível com a lógica de cessar-fogo. Na prática, cada lado exige que o outro recue primeiro, e isso congela o processo.
A crise no Estreito de Ormuz tornou esse impasse ainda mais explosivo. O governo iraniano declarou ser “impossível” reabrir plenamente a rota marítima enquanto considerar que Estados Unidos e Israel seguem violando os entendimentos do cessar-fogo. Ao mesmo tempo, episódios recentes envolvendo navios, apreensões e confrontos elevaram a temperatura militar e agravaram o custo global da instabilidade, com reflexos imediatos no petróleo, no comércio e na segurança da navegação. Em vez de criar ambiente para diálogo, o mar virou mais uma frente de chantagem recíproca e demonstração de força.
Mesmo assim, Teerã tenta projetar alguma aparência de unidade. Também em 23 de abril, Ghalibaf e o presidente Masoud Pezeshkian divulgaram mensagens quase idênticas em defesa da liderança suprema do país, numa reação direta à narrativa de que o regime estaria rachado. O gesto, no entanto, teve efeito ambíguo: ao tentar desmentir publicamente a divisão, a cúpula iraniana apenas reforçou a percepção de que a disputa existe e já se tornou um problema político concreto. Quando o poder precisa encenar coesão em tempo real, é porque a fragmentação já deixou de ser apenas rumor.
O resultado é um quadro sem luz no fim do túnel. A trégua segue formalmente viva, mas serve hoje mais para adiar uma nova escalada do que para pavimentar a paz. O Irã aparenta estar trocando uma condução política imperfeita por uma tutela cada vez maior de setores militares radicais. Os Estados Unidos, por sua vez, mantêm a lógica de pressão máxima mesmo enquanto dizem defender a negociação. Entre bloqueios, exigências incompatíveis e disputa de poder em Teerã, o cessar-fogo sobrevive, mas a diplomacia agoniza.
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