Juros contam a verdade que a política tenta esconder: a Selic por governo e o preço da falta de austeridade
A taxa básica é o “termômetro” do risco fiscal e da inflação; quando o Estado gasta mais do que pode, o país paga com dívida maior, serviço da dívida crescente e crédito mais caro para empresas e famílias.

A taxa de juros é um dos indicadores mais implacáveis da economia de um país, porque ela não negocia com discurso: ela precifica risco. No Brasil, esse termômetro atende pelo nome de Selic, a taxa definida pelo Copom e que influencia desde a inflação até o custo do dinheiro, o tamanho da dívida e a conta do “serviço da dívida” que o contribuinte paga sem perceber.
O histórico ajuda a entender por que o tema deveria ser tratado como prioridade nacional. Em levantamentos que calculam a média da Selic por períodos de governo, aparece um padrão bastante claro: juros altos caminham junto com incerteza fiscal e inflação resistente. Um levantamento com base em dados do Banco Central apontou, por exemplo, Selic média por período de governo em média ano: FHC (1999–2002) 19,8%; Lula 1 (2003–2006) 18,4%; Lula 2 (2007–2010) 11%; Dilma 1 (2011–2014) 9,9%; Dilma 2 (2015–2016) 13,4%; Temer (2016–2018) 9,3%; Bolsonaro (2019–2022) 6,3%; Lula 3 (2023–2025) 13,0%.
Por que isso importa tanto? Porque juros não são um detalhe técnico: são uma conta que atravessa o país inteiro. Selic alta tende a segurar a inflação, mas cobra um preço pesado. O Tesouro se financia mais caro e a dívida cresce mais rápido. O orçamento é pressionado pelo serviço da dívida, reduzindo espaço para investimento produtivo. Empresas pagam mais para financiar capital de giro e expansão. Famílias pagam mais no crédito e no parcelamento. E, no fim, a economia desacelera, a renda sofre e a arrecadação perde força, criando o ciclo perverso: mais pressão fiscal, mais risco, mais juros.
É por isso que o debate real deveria sair da superfície e encarar a raiz: o fiscal manda na Selic mais do que a retórica admite. Quando o governo sinaliza que vai gastar mais do que arrecada, o mercado exige prêmio de risco e as expectativas de inflação se desancoram, o que empurra o Banco Central a manter juros altos por mais tempo. A própria análise de economistas citados em estudos recentes aponta exatamente isso: sem cortes e mudanças estruturais no gasto, a política monetária fica “condenada” a segurar o país com juros elevados.
Daí vem a tese central que precisa ser repetida até virar senso comum: governos deveriam perseguir austeridade, superávit primário e eficiência do Estado. Não por ideologia, mas por matemática. Superávit primário significa que, antes dos juros, o governo arrecada mais do que gasta — e isso é a base mínima para estabilizar a trajetória da dívida. Austeridade não é “cortar por cortar”; é cortar desperdício, rever privilégios, reduzir estruturas improdutivas e concentrar recursos no que gera retorno social e econômico. Um Estado melhor não é um Estado maior: é um Estado que entrega.
Quando esse caminho é abandonado, o Brasil cai na armadilha que já conhece: aumenta gasto para ganhar aplauso de curto prazo, perde credibilidade, paga mais caro para se financiar e transfere a conta para a sociedade inteira — especialmente para quem mais depende de emprego, renda e crédito acessível.
A Selic, no fim, é um espelho. Ela mostra o quanto o país inspira confiança para emprestar dinheiro ao próprio Estado. E enquanto o Brasil não encarar o ajuste estrutural — com seriedade, coragem política e prioridade absoluta — vamos continuar presos ao mesmo roteiro: juros altos, dívida pressionada, crescimento travado e a população pagando, silenciosamente, por escolhas ruins.
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