O “fim do 6×1” não é de graça

PEC que avança no Congresso prevê reduzir a jornada de 44 para 36 horas semanais — sem corte salarial. A proposta parece um alívio imediato, mas levanta uma pergunta inevitável: quem paga a conta?

A proposta de acabar com a escala 6×1 voltou ao centro do debate político e ganhou tração no Congresso. A PEC foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e traz dois pilares que, na prática, mudam a engrenagem do mercado de trabalho: o fim do modelo “seis dias de trabalho para um de descanso” e a redução gradual da jornada semanal, hoje em 44 horas, até chegar a 36 horas — mantendo o salário.

Pelo texto aprovado na CCJ, a transição começa já no primeiro ano após a eventual promulgação, com a jornada máxima caindo de 44 para 40 horas. Depois, haveria nova redução anual, até alcançar 36 horas na sequência. Ou seja: não é “de uma vez”, mas é uma mudança estrutural.


📌 BOX | A conta eleitoral pode falar mais alto

Este portal tem plena convicção de que a proposta terá grande chance de aprovação no Congresso. E há um motivo simples: o debate deve ocorrer em ambiente eleitoral.

Em ano de eleição, projetos com apelo popular imediato costumam avançar com facilidade, porque geram discurso pronto, manchetes fáceis e votos rápidos. Afinal, é muito mais sedutor prometer ao eleitor “trabalhar menos e ganhar o mesmo” do que assumir o peso de discutir impactos reais e consequências econômicas.

O problema é que a política pensa no curto prazo, enquanto a economia cobra no longo prazo.

Por isso, este portal mantém sua posição: a conta não será paga pelo governo, nem pelo Congresso — será paga pelo próprio trabalhador, seja com menos empregos formais, mais informalidade ou aumento de preços no dia a dia.


E aqui entra o ponto que muita gente prefere empurrar para depois: economia não funciona por desejo, funciona por custo. Se a empresa precisa entregar o mesmo serviço com menos horas disponíveis, há três caminhos possíveis — e nenhum deles é mágico. Ou ela contrata mais gente (aumentando despesas), ou repactua produtividade (o que nem sempre é possível, sobretudo em serviços), ou corta onde consegue (o que pode virar menos vagas, menos turnos, menos investimento).

A consequência mais previsível aparece em dois lugares: no emprego e no preço. Setores intensivos em mão de obra — comércio, segurança, limpeza, vigilância, logística, bares e restaurantes, parte da indústria — podem sentir primeiro. Pequenas e médias empresas, com margens apertadas, tendem a sofrer mais. As maiores, quando conseguem absorver o impacto, muitas vezes repassam o custo para a ponta final: o consumidor. E, no fim do mês, quem sente mais é justamente quem ganha menos.

Isso não significa ignorar o debate. O Brasil tem um problema real de qualidade de vida, exaustão, deslocamento, rotinas longas e produtividade desigual. O tema é legítimo. O que este portal sustenta é outra coisa: vender a ideia como “benefício garantido” sem discutir impactos é alimentar uma ilusão perigosa. Se a política quiser ser séria, precisa responder com clareza: quais setores terão transição diferenciada? Como ficam atividades essenciais? Quem protege o pequeno empregador? Qual o plano para evitar informalidade?

A PEC agora segue seu rito: ainda precisará avançar nas etapas legislativas antes de virar regra de fato. Até lá, o país deveria fazer o que raramente faz: discutir menos no grito e mais no detalhe — porque, em economia, a conta sempre chega.

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