Passageiros do Trem

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Na madrugada silenciosa, o resfolegar asmático do trem podia ser ouvido antes mesmo de ele apontar na curva dos trilhos. O homem levantou-se do banco de madeira onde esperava sentado e caminhou pela plataforma vazia da estação. Os vagões desfilaram à sua frente, todos vazios.

Pedro – era este o seu nome – embarcou no último deles. Escolheu o último conjunto de assentos – eram quatro, em dois bancos, um de frente para o outro – e espalhou-se no espaço: a pasta para um lado, a capa de chuva para o outro. Sentiu-se confortável, o território era todo seu, sem ninguém para incomodá-lo.

O trem colocou-se em marcha e continuou engolindo lonjuras e paisagens apenas adivinhadas.

Na estação seguinte, também havia apenas um homem esperando o trem. Embarcou no último vagão.

– Com tanto vagão vazio, precisava escolher logo o “meu”?… – Resmungou Pedro.

O desconforto virou irritação quando Paulo – era esse o nome do segundo homem – pediu licença, como quem não aceita recusas, afastou a capa e sentou-se no banco em frente a Pedro. A viagem continuou. Pedro nem procurou disfarçar a raiva: ignorou Paulo, não respondeu ao seu cumprimento, não lhe dirigiu a palavra nem o olhar.

Quando o trem parou na terceira estação, a luz da manhã já clareava o horizonte. Mas o vermelho que coloria o céu parecia prenunciar que o dia e o mundo conspiravam contra Pedro e agora também contra Paulo.

João – só ele embarcou naquela parada –, assim como Pedro e Paulo, escolheu a última composição do trem. Quando se encaminhou para o fundo do vagão, pôde sentir toda a hostilidade de Pedro e Paulo – que, de inimigos, tornaram-se aliados para juntar forças no objetivo comum de escorraçar o intruso. O novo passageiro ignorou os outros viajantes, seu mau humor e seus resmungos, e foi acomodar-se bem perto deles.

Nas estações seguintes, a história continuou se repetindo…

Os passageiros que aguardavam a chegada do trem viam seis, sete vagões desfilarem à sua frente. Vazios, completamente vazios. E o último vagão cada vez mais lotado! Instintivamente, acreditavam ser aquele o melhor dos vagões.

“Se todo mundo está lá, é porque tem uma boa razão”, imaginavam.

E também se dirigiam a ele. Para – num primeiro momento – serem hostilizados pelo grupo que chegara antes. Logo mais, acabavam se unindo aos antigos adversários para hostilizar os novos invasores…

História contada por Jakzam Kaiser, que a conheceu na cadeira de Antropologia,

quando estudava o comportamento e as reações do homem na defesa do seu espaço.

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