Quem eu me tornei depois da tempestade?

Quando atravessamos uma fase difícil, é muito comum sentirmos um desejo profundo de “voltar a ser quem éramos antes”. Existe uma nostalgia por aquela versão de nós que ainda não conhecia certas dores, que era, talvez, mais leve ou menos cautelosa.

No entanto, na clínica, percebemos que um dos maiores sofrimentos não vem apenas da perda em si, mas da tentativa exaustiva de recuperar uma identidade que não nos cabe mais.

*O caminho não é de volta*

A verdade é que não existe caminho de volta. A tempestade emocional, assim como a da natureza, muda a paisagem de forma definitiva. Ela leva embora o que era frágil e nos obriga a fortalecer as nossas bases de um jeito que a calmaria nunca exigiria.

Tentar ser exatamente quem você era antes é ignorar tudo o que você precisou aprender para sobreviver. É desconsiderar a força que você descobriu ter quando achou que não aguentaria.

*Recomeçar é avançar com o que restou*

O recomeço não é um retorno ao passado; é o início de uma nova versão. É uma construção feita sobre um solo que foi remexido, mas que agora é muito mais consciente. Essa nova versão carrega cicatrizes, sim, mas elas não são marcas de derrota. São marcas de uma consciência muito maior sobre os próprios limites, valores e potências.

Hoje, depois de tudo o que passou, talvez você seja alguém que:

– Valoriza mais os pequenos momentos de paz;

– Aprendeu a dizer “não” para o que te sobrecarrega emocionalmente;

– Entende que a vulnerabilidade não é fraqueza, mas a coragem de ser real.

*Honrar a transformação*

Você não é mais a mesma pessoa de antes da tempestade. E está tudo bem. Abraçar essa nova versão, é o que permite que você pare de lutar contra o que passou e comece, finalmente, a construir o que virá.

A terapia é o espaço onde ajudamos a integrar essas mudanças. É onde você entende que não se perdeu no caminho, mas que se reencontrou em um lugar mais firme e honesto. Recomeçar não é recuperar o que se foi; é avançar com a sabedoria do que ficou.

O que a sua “nova versão” aprendeu de mais valioso nessa travessia? Se você sente que ainda está tentando se reencontrar entre os destroços, saiba que não precisa fazer esse inventário sozinha.

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