Trump lá e Lula aqui: tarifas sobem, narrativas mudam — e quem paga a conta é o consumidor
Após a Suprema Corte dos EUA derrubar o “tarifaço” por falta de base legal, Trump anunciou tarifa global de 15% por outra seção; no Brasil, o governo elevou alíquotas de importação para uma ampla lista de bens de capital e tecnologia. Motivos variam, mas o efeito é conhecido: preços e custos sobem na ponta.

Trump lá e Lula aqui. Cada um com seus motivos, discursos e justificativas, mas uma coisa é certa: quando governos decidem encarecer importações, o efeito final costuma bater no mesmo lugar — o bolso do consumidor.
Nos Estados Unidos, a semana foi de reviravolta institucional. A Suprema Corte decidiu, por 6 a 3, que a estratégia de Donald Trump de impor tarifas amplas com base na IEEPA (lei de poderes econômicos de emergência) era ilegal, reforçando o entendimento de que medidas dessa natureza exigem respaldo claro do Congresso. A decisão ainda abriu a possibilidade — a depender da aplicação em instâncias inferiores — de reembolsos bilionários por valores já recolhidos com as tarifas.
A resposta política veio rápida. Um dia depois, Trump anunciou uma tarifa global de 15% sobre importações, agora citando a Section 122 do Trade Act de 1974, que permite ao presidente aplicar tarifa de até 15% por até 150 dias, sob a justificativa de corrigir desequilíbrios. O argumento oficial é o de “corrigir uma estrutura injusta” que, segundo ele, prejudica os EUA há décadas.
No Brasil, o movimento tem outra roupagem, mas chega ao mesmo efeito prático: encarecimento da cadeia produtiva e, em algum momento, repasse. No início de fevereiro, o Comitê-Executivo de Gestão da Camex (Gecex) publicou a Resolução Gecex nº 852/2026, sustentada pela Nota Técnica SEI nº 501/2026/MF, que propõe a recomposição/realinhamento de alíquotas do Imposto de Importação para Bens de Capital (BK) e Bens de Informática e Telecomunicações (BIT), reorganizando faixas e elevando, de forma generalizada, alíquotas em uma extensa lista desses bens.
Entidades do setor reagiram publicamente, argumentando que o encarecimento de equipamentos e insumos tecnológicos pode atingir investimentos e competitividade. A ABES, por exemplo, criticou a resolução por elevar alíquotas sobre itens considerados essenciais à infraestrutura tecnológica. E análises jurídicas alertaram para impactos em fluxo de caixa e encarecimento de projetos de importadores.
O governo, por sua vez, sustenta a lógica de política industrial: proteger a cadeia produtiva nacional e recompor uma estrutura tarifária que vinha sendo tratada com exceções. Ao mesmo tempo, para evitar desabastecimento ou travar projetos sem oferta local, a própria Camex também aprovou — em reunião de 12/2 — a redução a zero do Imposto de Importação para mais de mil itens via ex-tarifários, medida que beneficia bens sem produção nacional equivalente.
Ou seja: o Brasil está, ao mesmo tempo, subindo alíquotas em bloco para BK/BIT e abrindo exceções para listas específicas, tentando equilibrar arrecadação, proteção e abastecimento. O problema é que, na vida real, o mercado não “compensa” sozinho: quando o custo de importar máquina, tecnologia, peça ou equipamento sobe, a conta aparece em algum lugar — no investimento que não sai do papel, no preço ao consumidor, na margem do varejo, ou nos três.
No fim, os governos podem chamar de “correção histórica”, “proteção à indústria”, “reindustrialização”, “defesa nacional” ou “equilíbrio comercial”. Mas tarifa é, na prática, um imposto sobre a importação. E imposto tem destino previsível: desce a cadeia e chega à ponta.
Simples assim.
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