AGRO BRASILEIRO E A GUERRA NO GOLFO

Ernesto São Thiago
Diplomado pela Escola Superior de Guerra em Estudos Estratégicos de Defesa

Imagem gerada por IA

Estando em transcurso o 13º dia da guerra no Golfo, analistas do mercado agrícola começam a delinear os impactos sobre fertilizantes, grãos e margens do produtor brasileiro. O choque inicial é negativo: fertilizantes e energia reagem imediatamente à crise geopolítica. A ureia, referência do mercado nitrogenado, saltou de aproximadamente US$490–500 por tonelada para a faixa de US$650–700, alta superior a 30% a 40% em poucos dias, refletindo o encarecimento do gás natural e o risco logístico no Golfo, por onde transitam matérias-primas essenciais da indústria de fertilizantes.

Especialistas costumam dividir o impacto agrícola em três horizontes temporais. Curto prazo, entre 0 e 3 meses, é o período em que os insumos sobem primeiro. Fertilizantes, diesel e fretes pressionam os custos da próxima safra, especialmente em países dependentes de importações como o Brasil, que compra no exterior cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza.

No médio prazo, entre 3 e 12 meses, os preços das commodities agrícolas tendem a reagir. Historicamente, choques energéticos elevam os custos globais de produção e acabam pressionando os preços de grãos e fibras. Esse movimento já começa a aparecer nos mercados futuros de soja, milho e trigo, que incorporam o risco inflacionário na cadeia alimentar global.

No longo prazo, entre 12 e 24 meses, o ajuste costuma favorecer grandes exportadores agrícolas. Se a guerra prolongar a inflação energética e de insumos, o aumento do preço internacional dos alimentos pode superar a alta dos fertilizantes. Nesse cenário, países com grande capacidade produtiva — como o Brasil, maior exportador mundial de soja e um dos principais de milho e algodão — tendem a capturar margens maiores.

Assim, a leitura predominante entre especialistas do agro é clara: o choque inicial é de custo, mas a tendência estrutural, se o conflito se prolongar, é de valorização das commodities agrícolas, abrindo a possibilidade de margens positivas e até superiores às observadas antes da guerra para parte relevante do agronegócio brasileiro.

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