GUERRA, ENERGIA E A NOVA GEOGRAFIA DO AGRO
Por Ernesto São Thiago
Diplomado pela Escola Superior de Guerra (ESG) em Estudos Estratégicos de Defesa

A guerra no Golfo introduziu um novo choque estrutural nos mercados agrícolas globais. O primeiro impacto ocorreu no mercado de fertilizantes nitrogenados, altamente dependente do gás natural e da logística energética do Oriente Médio.
Antes do início do conflito, a ureia era negociada no mercado internacional próxima de US$470 a US$490 por tonelada. Com a escalada militar e a interrupção parcial de rotas logísticas e instalações energéticas na região, negócios recentes passaram a ocorrer na faixa de US$520 a US$550 por tonelada, refletindo um aumento superior a 10% em poucos dias.
O movimento ocorre em um mercado que já vinha pressionado. A redução da produção europeia após a crise energética iniciada com a guerra na Ucrânia e restrições de exportação impostas por grandes produtores asiáticos haviam comprimido a oferta global de fertilizantes. O novo conflito apenas intensificou esse processo.
Historicamente, quando energia e fertilizantes sobem simultaneamente, os preços agrícolas tendem a reagir com algum atraso, mas de forma consistente. Energia mais cara eleva custos de transporte, produção e irrigação, enquanto também impulsiona a demanda por biocombustíveis, aumentando o consumo de milho e soja.
Nesse cenário, o Brasil entra na turbulência geopolítica em posição singular. O país consolidou-se como o maior exportador mundial de soja, responsável por cerca de 55% do comércio global, além de ser um dos maiores exportadores de milho e algodão.
A produção também segue em expansão. A safra brasileira de soja já supera 170 milhões de toneladas, com exportações projetadas acima de 110 milhões de toneladas. No milho, o país exporta volumes superiores a 40 milhões de toneladas anuais, consolidando-se entre os principais fornecedores globais.
Esse posicionamento cria um paradoxo econômico recorrente em crises energéticas. Embora fertilizantes e custos agrícolas subam inicialmente, grandes exportadores de alimentos tendem a capturar parte da valorização global das commodities.
Se o conflito se prolongar e a energia permanecer cara, o sistema agrícola internacional poderá entrar em um novo ciclo de reprecificação das commodities alimentares. Nesse cenário, poucos países possuem capacidade de resposta produtiva comparável à do Brasil — hoje um dos pilares centrais da segurança alimentar global.
