Seis técnicos em seis rodadas: o futebol brasileiro insiste no amadorismo e culpa sempre o mesmo
A 6ª rodada do Brasileirão mal terminou e o país já soma seis quedas de treinadores em clubes da Série A: Jorge Sampaoli no Atlético-MG, Fernando Diniz no Vasco, Juan Carlos Osório no Remo, Filipe Luís no Flamengo, Hernán Crespo no São Paulo e, agora, Tite no Cruzeiro. O retrato é velho, conhecido e preocupante: tudo é pensado no curto prazo, e o culpado quase sempre é o técnico.

Novamente o futebol brasileiro volta a um assunto que já virou rotina: o amadorismo na administração dos clubes. Início de temporada, apenas seis rodadas do Campeonato Brasileiro, e já chegamos à sexta demissão de treinador entre equipes da Série A. O caso mais recente é o de Tite, desligado do Cruzeiro após o empate por 3 a 3 com o Vasco, mesmo poucos dias depois de ter conquistado o Campeonato Mineiro.
Antes dele, já haviam caído Jorge Sampaoli, demitido pelo Atlético-MG em fevereiro após sequência irregular e apenas duas vitórias em dez jogos; Fernando Diniz, desligado do Vasco depois da derrota para o Fluminense na semifinal do Carioca; Juan Carlos Osório, demitido do Remo após a derrota no Re-Pa e uma passagem de só 14 jogos; Filipe Luís, surpreendentemente dispensado pelo Flamengo poucas horas após uma goleada por 8 a 0 sobre o Madureira; e Hernán Crespo, demitido pelo São Paulo no início de março.
O roteiro é sempre o mesmo. O clube monta elenco, promete projeto, fala em planejamento, vende discurso de continuidade e, na primeira sequência ruim, quebra tudo. O treinador vira o alvo preferencial porque é a peça mais visível, a troca mais rápida e a explicação mais simples para oferecer ao torcedor. O problema é que isso não resolve a raiz de quase nada. Resolve, no máximo, a ansiedade de curto prazo de dirigentes que preferem dar uma resposta imediata a admitir erros de montagem, escolhas ruins de mercado, falta de identidade de jogo ou ausência de comando institucional.
E há um custo nisso. Trocar técnico não significa apenas começar de novo dentro de campo; significa também abrir novo ciclo de comissão, método, modelo de treino e, muitas vezes, custo rescisório. No caso de Fernando Diniz, por exemplo, foi noticiado que a demissão vai custar ao Vasco o equivalente a três meses de salário, com pagamento previsto em até seis meses. Isso num futebol que vive reclamando de caixa apertado, dívida alta e dificuldade para investir.
O mais grave é que o Brasil continua tentando resolver um problema estrutural com pensamento infantil. Tudo é feito no curto prazo. O dirigente quer resultado imediato. O conselheiro quer resposta de impacto. A torcida quer reação. E, no fim, sacrifica-se justamente a função que mais depende de tempo, repetição e estabilidade para produzir algo sólido: a do treinador. É por isso que o nosso futebol segue preso a sobressaltos, picos curtos e quedas frequentes.
Enquanto isso, o abismo para o futebol europeu não para de crescer. Lá fora, há mais dinheiro, mais organização e, sobretudo, mais respeito ao processo em clubes sérios. Aqui, insiste-se na lógica de improviso permanente. Depois nos perguntamos por que o Brasil perdeu protagonismo internacional, perdeu capacidade de formar times mais consistentes e passou a depender muito mais do talento individual dos jogadores do que de estruturas coletivas realmente fortes.
No final, sobra a sensação resumida pelo velho ditado: “tem alguma coisa errada, que não está certa”. Porque não é normal que seis clubes da elite decidam, praticamente ao mesmo tempo, que o problema central da temporada está no banco. Quando todo mundo troca, talvez o erro não esteja apenas em quem treina — esteja, principalmente, em quem manda.
E nesse ambiente, a conclusão acaba sendo cruel: se nada mudar na cabeça dos dirigentes, no modelo de gestão e na compreensão do que é futebol de alto nível, o campeão seguirá sendo, muitas vezes, apenas o menos ruim.
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