LDO sinaliza ajuste, mas projeção para estatais expõe um problema que o governo não resolveu
Enquanto a LDO de 2027 traz um sinal fiscal mais positivo para o setor público, o próprio governo admite que as estatais federais continuarão no vermelho por vários anos, mantendo pressão sobre as contas e reacendendo o debate sobre o papel do Estado como empresário.

De um lado, a LDO de 2027 oferece um sinal fiscal positivo ao projetar melhora gradual do resultado primário do setor público. De outro, quando o foco se volta especificamente para as estatais federais, o quadro muda de forma preocupante. Segundo números divulgados com a tramitação do orçamento, o governo projeta déficit dessas empresas em todos os próximos quatro anos: R$ 7,5 bilhões em 2027, R$ 6,1 bilhões em 2028, R$ 5 bilhões em 2029 e R$ 5,7 bilhões em 2030.
Isso significa, na prática, que mesmo num momento em que o discurso oficial tenta reforçar compromisso com o equilíbrio fiscal, o próprio governo admite que continuará carregando empresas estatais deficitárias por um período prolongado. E esse não é um detalhe técnico. É um problema de fundo. Porque déficit recorrente em estatal não desaparece por mágica: ele pressiona o setor público, piora a percepção de eficiência e amplia a dúvida sobre a capacidade do Estado de administrar negócios com sustentabilidade.
Os números recentes ajudam a entender essa preocupação. As estatais federais encerraram 2025 com déficit de R$ 5,1 bilhões, segundo dados do Banco Central. Ou seja, a projeção negativa para os próximos anos não surge do nada. Ela apenas prolonga uma realidade já instalada.
No caso dos Correios, o retrato é ainda mais simbólico. As demonstrações financeiras publicadas oficialmente mostram que a empresa fechou 2024 com prejuízo de R$ 2,6 bilhões, resultado muito pior que o de 2023. Quando até uma estatal centenária, com grande capilaridade nacional e presença histórica em todo o território brasileiro, segue dependente de reequilíbrio constante, fica difícil sustentar a tese de que o Estado brasileiro tem demonstrado especial eficiência como gestor empresarial.
É justamente por isso que o debate sobre criar novas estatais, ampliar o papel empresarial do governo ou reestatizar estruturas deveria ser tratado com máxima cautela. O setor público brasileiro já opera com limitações fiscais importantes. Carregar déficits recorrentes de empresas controladas pelo governo apenas agrava um quadro que já exige ajuste, previsibilidade e responsabilidade.
A discussão aqui não é ideológica por si só. É prática. O governo existe para regular, fiscalizar, planejar, induzir desenvolvimento e prestar serviços essenciais. Quando passa a atuar também como empresário em larga escala, precisa provar eficiência compatível com esse papel. E os números, neste momento, não ajudam essa defesa. Pelo contrário: sugerem que o país continua tendo enorme dificuldade para transformar controle estatal em resultado econômico consistente.
Por isso, vale um raciocínio simples. Se o próprio governo admite déficits bilionários prolongados em suas estatais, o mais prudente talvez seja seguir um princípio conhecido: cada um no seu quadrado. Ao Estado cabe governar bem, organizar contas, regular com inteligência e criar ambiente favorável ao investimento. À iniciativa privada cabe empreender, competir, inovar e correr risco empresarial. Misturar demais essas funções, no Brasil, historicamente tem custado caro.
No fim, a mensagem é clara. A melhora projetada na LDO é bem-vinda e merece registro positivo. Mas ela perde força quando o próprio governo mostra que continuará convivendo com estatais no vermelho por anos. E enquanto isso seguir assim, continuará de pé a pergunta que o país não consegue responder com tranquilidade: por que insistir em ampliar o peso empresarial do Estado, se o básico da gestão pública já é tão difícil de equilibrar?
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