MOBILIDADE DAS PESSOAS E PSICOLOGIA

Ernesto São Thiago, advogado atuante em Direito da Orla e fundador da Destino Náutico Consultoria

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Uma recente coluna estabeleceu um contraste curioso ao comentar o caso de um suspeito de crimes do colarinho branco, além de alguns delitos bastante comuns. De um lado, a figura descrita como alguém de boa aparência, estilo e vida confortável. De outro, o ladrão “vulgar”, aquele que rouba e continua com “cara de quem pega ônibus às seis da manhã”.

A expressão, usada como figura de linguagem, acaba revelando um pressuposto social implícito. Parte da ideia de que apenas pessoas de origem simples usam, ou deveriam usar, ônibus às seis da manhã. E mais do que isso: sugere que essa condição deixaria marcas visíveis, uma espécie de traço social permanente, reconhecível à primeira vista.

Nesse sentido, a frase não descreve exatamente uma aparência. Descreve um lugar social presumido. Algo que lembra o equivalente masculino de outra expressão igualmente infeliz que já circulou com naturalidade em certas conversas: “cara de empregada”.

Há, porém, um detalhe elementar que a metáfora ignora. Quem pega ônibus às seis da manhã, em regra, não está indo cometer crimes. Está indo trabalhar. Está indo abrir comércio, atender pacientes, dar aula, construir prédios e manter a cidade funcionando.

A psicologia observa fenômenos semelhantes há mais de um século. Desde Alfred Adler discute-se a tendência humana de compensar sentimentos de inferioridade por meio de sinais exteriores de distinção. Em determinadas circunstâncias, aquilo que aparece como afirmação de status pode também funcionar como mecanismo de equilíbrio simbólico, uma tentativa de organizar a própria posição social por meio de signos visíveis.

Esse tipo de lógica não é incomum em sociedades fortemente sensíveis a marcadores externos de posição social. Conversas aparentemente banais frequentemente se transformam em pequenas disputas de experiências. Em inglês há até um termo para isso: one-upmanship, a tendência de sempre sobrepor à fala alheia uma experiência supostamente mais interessante, sobretudo quando o assunto são viagens ou estilos de vida.

Hoje viajar tornou-se também um rito social visual. Muitos percorrem cidades admiravelmente organizadas em termos de mobilidade, caminham por ruas seguras, pedalam em ciclovias bem planejadas ou utilizam metrôs e ônibus eficientes. Registram fotos, selfies e vídeos que parecem cosmopolitas. O problema é que, de volta ao cotidiano, essa experiência raramente se converte em reflexão prática sobre a cidade onde vivem.

O contraste é curioso porque, nas mesmas cidades visitadas, não é incomum ver figuras públicas deslocando-se com absoluta naturalidade em meios coletivos ou não motorizados. O primeiro-ministro holandês Mark Rutte ficou conhecido por ir trabalhar de bicicleta em Haia. Prefeitos e ministros europeus frequentemente utilizam metrô ou trem para deslocamentos cotidianos. Em cidades como Londres, Paris ou Amsterdã, caminhar, pedalar ou usar transporte público faz parte da rotina de pessoas de todas as posições sociais.

Certa vez ouvi de um profissional liberal a frase: “eu, descendo de um ônibus, o que pensarão de mim?”. O comentário talvez diga mais sobre ansiedade de status do que sobre transporte.

Aliás, tenho o cartão de ônibus da cidade e o utilizo quase diariamente quando essa é simplesmente a forma mais racional de deslocamento. Essa experiência prática, ao menos, dá algum lugar de fala quando o tema é mobilidade urbana.

Talvez por isso a expressão “cara de quem pega ônibus às seis da manhã” diga menos sobre quem utiliza o transporte público e mais sobre o imaginário social de quem a emprega.

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