Pecado Capital
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Diz a lenda que o Diabo descobriu um segredo capaz de torná-lo mais poderoso que Deus e, conseqüentemente, dominar o mundo: ter um neto, gerado por dois filhos seus, em relação incestuosa.
Materializou-se homem e deu início à sua estratégia. Seduziu duas mulheres, com quem teve dois filhos, uma linda mulher e um rapaz talentoso. Deixou-os crescerem, até se tornarem adultos, sob os cuidados das respectivas mães. Quando se tornaram independentes, iniciou a segunda parte do seu plano.
Mestre na arte, sabia que o mundo pode oferecer aos viventes muitas tentações. Mas nada supera os pecados capitais. Cabia a ele colocar a isca certa em cada anzol a ser utilizado para pescar seus filhos.
A Mulher rendeu-se ao luxo, à lascívia, à concupiscência.
O Homem formara-se em Direito e tinha diante de si brilhante carreira de criminalista. No momento, defendia importante cliente acusado de grave crime. Num intervalo do julgamento, numa escapada ao banheiro, um jornalista lhe repassa informação obtida de fonte segura: seu cliente é culpado, ele tem as provas. O jornalista vai além e o tenta com expediente irresistível: propõe que ele renuncie à defesa do cliente, revele o segredo no tribunal; na contrapartida, o jornalista o tornaria famoso, estampando a história na capa de um dos principais jornais do país.
O Homemse debate entre dois sentimentos: vaidade e poder. Imagina-se famoso, com foto nos jornais, admirado por todos. Imagina-se poderoso, rico, dono ou sócio de importante escritório, defendendo outros poderosos e ricos, influente no mundo financeiro e político.
Opta pela segunda alternativa. Retorna ao tribunal, consegue a absolvição do cliente, contra todos os indícios, evidências, provas.
O Diabo contrata o filho para trabalhar em seu escritório de advocacia, o mais influente do país. Dia após dia alimenta sua ambição. Ao final, revela seu segredo. E o apresenta à Mulher, sua meia-irmã. O Homem deixa-se seduzir pelos seus encantos. Momentos antes de consumar o incesto, num repente de lucidez, incapaz de se opor ao diabólico plano, suicida-se.
O tempo, para o Diabo, não obedece aos mesmos parâmetros de dias, noites, semanas, meses e anos dos comuns mortais. Ao suicidar-se, o advogado faz a história retroceder ao ponto inicial. De volta ao banheiro público, continua a debater-se entre os dois sentimentos: vaidade e poder. No tribunal, abandona a defesa do cliente, revelando as provas de seu crime. Na saída do prédio, ainda nas escadarias, é aplaudido pela multidão, fotografado, entrevistado por dezenas de jornalistas…
O Diabo observa a cena, contente, sorriso diabólico, antevendo o desenrolar de nova história:
– Melhor assim. Vou ter mais chances. A vaidade é o meu pecado preferido!
História do filme “O Advogado do Diabo”.
