Tilápia: importação do Vietnã avança e acende alerta em SC

Governo federal revogou a suspensão e liberou a importação de tilápia do Vietnã; primeiros contêineres, contratados pela JBS, já estão a caminho.

A discussão sobre proibir a tilápia ganhou combustível justo quando o governo federal liberou a importação do peixe produzido no Vietnã. Em 24 de abril de 2025, o Ministério da Agricultura (MAPA) revogou a suspensão e reabriu o mercado brasileiro ao pescado vietnamita. Agora, os primeiros contêineres contratados pela JBS — gigante do setor de alimentos — já estão a caminho do Porto de Santos, com chegada prevista para meados de dezembro. Para Santa Catarina, onde cerca de 30 mil famílias dependem diretamente da tilapicultura e da pesca associada, o recado soou como sirene: concorrência importada num momento em que, no plano ambiental, a tilápia foi incluída pela Conabio na lista de espécies exóticas invasoras (o que não é, por si, proibição de cultivo). Em suma: importação acelerando; segurança regulatória patinando.

De um lado está o fato comprovado: a liberação pelo MAPA. De outro, os embarques — noticiados por veículos brasileiros e pela imprensa vietnamita — dão conta de remessas iniciais de filés, parte de um lote maior contratado para abastecer varejo e food service. O setor local teme dumping de preço amparado por custos asiáticos menores e por escala industrial — uma combinação capaz de apertar margens e desalojar produtores regionais. Some a isso a incerteza criada pela classificação ambiental: ao carimbar a tilápia como exótica invasora, o governo abriu flanco jurídico que pode dificultar licenças e financiamento em cadeias inteiras, mesmo sem banir o cultivo. Resultado: o elo mais fraco — o pequeno produtor — paga a conta.

Em SC, onde a tilápia responde por boa parte da piscicultura, a reação foi imediata: a Secretaria de Aquicultura e Pesca e lideranças locais contestaram a proposta ambiental, pediram base técnica transparente e alertaram para impacto social. A leitura é simples: ninguém defende ilegalidades ambientais — mas importar enquanto se cria insegurança para produzir aqui é contrassenso. Se houver risco sanitário (como o TiLV), que se prove e se blinde fronteira e granjas, aplicando o mesmo rigor para dentro e para fora. Se a lógica é competitiva, que se garanta isonomia mínima: rastreabilidade, condições sanitárias equivalentes, reciprocidade de abertura e cláusulas de salvaguarda quando houver ameaça de dano grave à produção nacional.

Os fatos centrais estão dados: (1) o Brasil liberou a importação; (2) os primeiros lotes vietnamitas estão a caminho; (3) a tilápia entrou na lista de exóticas invasoras, sem banimento automático — mas com efeitos colaterais no licenciamento. Diante disso, a matéria assume tom crítico: não faz sentido abrir mercado externo enquanto se fragiliza quem produz aqui, sobretudo em Santa Catarina, onde a atividade sustenta milhares de famílias. Soberania econômica e segurança ambiental andam juntas: exigir sanidade, isonomia e transparência nas importações, clareza regulatória para quem trabalha no Brasil e respeito a quem tira o sustento dos viveiros e das águas catarinenses.

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