ECONOMIA AZUL E TURISMO QUALIFICADO
Ernesto São Thiago, advogado atuante em Direito da Orla e fundador da Destino Náutico Consultoria

A narrativa de que Florianópolis teria vivido uma “temporada frustrada” resulta, em grande medida, de análises excessivamente quantitativas do turismo. Observando os dados com maior rigor técnico, percebe-se algo diferente: uma mudança no perfil da demanda turística, e não uma perda estrutural de atratividade do destino.
A retração de turistas argentinos de menor poder aquisitivo é um fato, influenciado pela conjuntura econômica daquele país. Historicamente, esse público ocupa o segmento do veraneio residencial, baseado na locação de imóveis por temporada. Por isso, não surpreende que justamente esse mercado tenha apresentado retração em diversos balneários da ilha.
Quando se analisa a hotelaria, contudo, o quadro é distinto. Os índices de ocupação permaneceram elevados ao longo da temporada, próximos da capacidade máxima em períodos críticos como o Réveillon. O turista hospedado em hotel apresenta maior intensidade de consumo de serviços, dinamizando restaurantes, entretenimento, mobilidade e experiências turísticas.
Em outras palavras, houve uma requalificação da demanda. Regiões de maior valor agregado, como Jurerê Internacional, mantiveram movimento intenso durante toda a temporada, inclusive com presença significativa de turistas estrangeiros de maior poder aquisitivo.
Enquanto isso, o litoral centro-norte catarinense consolida um modelo de desenvolvimento turístico associado à infraestrutura náutica e à economia azul.
Itajaí e Balneário Camboriú operam como home ports de cruzeiros marítimos, permitindo embarque e desembarque completos de passageiros. Porto Belo tornou-se importante ponto de escala dessas rotas. Mais ao norte, São Francisco do Sul passou a integrar esse circuito ao receber cruzeiros de ultra luxo e de expedição, voltados a um público internacional de altíssimo poder aquisitivo.
Nesse contexto destaca-se também a Marina Itajaí, em forte expansão. Balneário Camboriú abriga a Tedesco Marina, além de outras marinas ao longo do Rio Camboriú. A cidade estrutura um polo náutico integrado ao Parque Unipraias e a novos projetos como o Píer de Turismo Náutico da Barra Norte, junto à BC Big Wheel. Também estão em estudo três novas marinas de grande porte, algumas com helipontos flutuantes, projetos que passam pela consultoria da Destino Náutico Consultoria.
Em São Francisco do Sul, merece destaque o Vila Real Hotel e Marina, que passou a contar com marina estruturada e abastecimento náutico, permitindo que navegadores atracem suas embarcações e hospedem-se no hotel, funcionando como marina de passagem nas rotas costeiras do sul do Brasil.
Florianópolis, por sua vez, começa a dar passos importantes. As obras do Parque e Marina da Beira-Mar Norte iniciam neste mês, representando o primeiro grande equipamento náutico estruturante da capital. A Destino Náutico Consultoria participou da fase preparatória indicando os estudos náuticos necessários para a elaboração do termo de referência e a empresa responsável por realizá-los, a CB&I.
Se a Ponte Hercílio Luz simbolizou a Florianópolis do século XX, a nova marina da Beira-Mar Norte tem potencial para representar a Florianópolis do século XXI, reposicionando a cidade dentro da economia azul.
O avanço, contudo, precisa continuar. Será fundamental estruturar um terminal de cruzeiros capaz de operar como home port e adaptar as principais orlas gastronômicas para o conceito boat-friendly, permitindo acesso também pelo mar.
Da mesma forma, ativos históricos extraordinários — como a Fortaleza de Santo Antônio de Ratones, a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim e a Fortaleza de São José da Ponta Grossa — poderiam integrar um circuito estruturado de turismo náutico-cultural, com infraestrutura de apoio à navegação.
Transversalmente a todo esse processo de desenvolvimento, há um tema absolutamente estratégico: o saneamento básico. O litoral catarinense experimenta um crescimento populacional acelerado, impulsionado tanto pela migração permanente quanto pelo turismo. Nesse contexto, torna-se imperativo avançar rapidamente na universalização do saneamento. Não é concebível que a ausência ou a deficiência desse serviço essencial comprometa um ecossistema turístico de alto valor ambiental, econômico e social como o que se consolida no litoral de Santa Catarina.
A temporada recente, portanto, não representa fracasso. Ela revela um diagnóstico estratégico: o turismo contemporâneo evolui na direção da qualificação da oferta, da integração com a economia azul e da valorização da interface entre cidade e mar.
Florianópolis reúne todos os atributos naturais, culturais e logísticos para liderar esse novo ciclo. O desafio agora é transformar vocação marítima em planejamento, infraestrutura e política pública à altura de seu potencial marítimo.
