Filho da Mãe

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

O motorista do táxi que me levava do centro de Belo Horizonte para o aeroporto de Confins pediu licença para “encostar” num posto de combustível. Explicou:

– Instalei gás no carro. Esse posto é o mais barato da cidade. Sempre que vou ao aeroporto, abasteço aqui.

Curioso, também desci; queria ver como funcionava o tal sistema a gás. O posto era moderno, limpo. No entanto, minha atenção foi desviada para o prédio ao lado, que parecia estar no mesmo terreno. Sujo, depredado, pichado, janelas com vidros quebrados. Destoava do local. Comentei o contraste com o taxista. A proximidade do prédio – grudado ao posto de combustível, com acesso comum – comprometia a imagem do estabelecimento comercial.

– O posto não tem nada a ver com o prédio. Nem sempre foi assim. Virou “arapuca” de dois anos pra cá. – Na meia hora seguinte, contou o acontecido que, no dizer dele, chocara a capital mineira.

—– ooo —–

Jamir era figura conhecida na cidade. Tinha uma loja de pneus, ali mesmo no lugar do prédio. Casou-se tarde, perto dos 40 anos, com Ana, que passou a trabalhar com ele. Formavam um casal harmonioso e enamorado. Vez por outra, os clientes flagravam os dois em cenas de discreto romantismo. Dois anos depois, nasceu Mariano, filho único.

Mariano cresceu “torto na vida”, no dizer do taxista. Bem que o pai, homem de princípios retos e costumes rígidos, tentou “endireitá-lo”. Mas seus esforços não encontravam guarida no coração da mãe, sempre a acobertar os desacertos do filho.

– É só um menino, não fez por mal, castigo não resolve, os tempos mudaram, a culpa é dos amigos, os professores não entendem de educação, o colégio é que não presta, é só uma aventura de adolescente, deixa ele festear, vai ter muito tempo pra trabalhar na vida… – repetia Ana, toda vez que o filho rodava de ano na escola, quebrava as janelas das casas vizinhas, se recusava a trabalhar na loja, madrugava em festas suspeitas ou se envolvia com as gangues do bairro.

Perto dos 60 anos, vendo que o filho não assumia os compromissos e os negócios na loja de pneus, Jamir resolveu se aposentar. Vendeu o comércio. Com o dinheiro, construiu dois prédios e passou a viver de aluguéis. Um dos prédios era esse ao lado do posto de combustível.

Mariano deixou de freqüentar o colégio. Continuou sem emprego e sem ocupação, a não ser gastar o dinheiro dos pais. Jamir imaginou um jeito de “endireitar” o filho. Cortou-lhe a mesada. A mãe o defendeu, como sempre. É uma injustiça com o menino, argumentou. Jamir se manteve inflexível. Ana passou a subsidiar as “necessidades” de Mariano. Jamir descobriu. Agora tinha dois problemas: o filho e a mulher. Nunca deixou faltar nada a Ana, mas lhe passava estritamente o dinheiro para manter a casa e uma pequena sobra para as veleidades de mulher. A vida do casal se transformou num inferno. Discutiam muito; a causa era sempre a mesma: a educação (ou falta de) de Mariano.

Mariano convenceu Ana a se separar do marido. Os argumentos eram sólidos, consistentes:

– O pai tem dois prédios. A senhora ajudou a construir o patrimônio do casal. Com a separação, o pai vai ser obrigado a lhe passar 50% dos bens. A mãe fica com um dos prédios. Eu administro os aluguéis, a gente vai ter independência e não precisa mais viver dos favores desse velho rabugento e sovina.

Tanto fez que a mãe entrou com pedido de divórcio. Sem a concordância de Jamir, o processo correu litigioso. A mulher argumentou maus tratos. O filho testemunhou contra o pai. Ao final, o juiz realmente determinou que um dos prédios ficasse com Ana.

Nos tempos seguintes, Jamir definhou de desgosto e desamor. Como imaginar tanto rancor e tanta mentira da mulher a quem dedicara carinho e paixão? Morreu, num prazo de dois anos, sem entender e aceitar a peça que a vida tinha lhe pregado.

Mariano herdou o segundo prédio, aquele ao lado do posto. Demorou pouco para pôr fora todo o patrimônio. Ninguém sabe – ela nunca falou disso a ninguém – se a mãe finalmente abriu o olho; o certo é que passou a reclamar com o filho. As reclamações resultaram em brigas sérias, resvalando para agressões físicas, obrigando Ana a se refugiar em casa de parentes.

Mais dois anos, a justiça confiscou os prédios, penhorados para credores diversos – a maioria, agiotas e traficantes. Ameaçado de morte, Mariano sumiu da cidade.

– Foi assim que o prédio virou sucata… – finalizou o taxista.

História contada por um taxista de Belo Horizonte.

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