Onde mora a sua microfelicidade?

Vivemos em uma cultura que nos ensina a esperar pelas “grandes alegrias”. Depositamos nossa expectativa de felicidade na viagem das férias, na promoção tão aguardada, no casamento dos sonhos ou na chegada do final de semana. Criamos a ilusão de que a satisfação é um evento grandioso que acontece de vez em quando.
Mas, na prática clínica, percebemos algo diferente: a saúde mental não se nutre apenas desses grandes marcos. Ela se sustenta, principalmente, no que acontece nos intervalos. Ela mora no que eu gosto de chamar de microfelicidades.
O que são microfelicidades?
As microfelicidades são pequenos lampejos de bem-estar que duram apenas alguns segundos ou minutos, mas que têm o poder de recarregar a nossa bateria emocional de forma imediata. Elas são sutis, silenciosas e, muitas vezes, passam despercebidas se estivermos com pressa demais.
Uma microfelicidade pode ser:
O cheiro de café passado preenchendo a casa logo cedo;
Aquela música que você adora começando a tocar no rádio exatamente quando você entra no carro;
A sensação térmica de um lençol limpo e fresco na hora de deitar;
O riso inesperado de uma criança ou o abanar de rabo de um animal de estimação;
A satisfação de riscar a última tarefa da lista e sentir que o dever foi cumprido.
Otimismo como exercício de atenção
Esses momentos não resolvem os grandes problemas do mundo e nem fazem os boletos desaparecerem. No entanto, eles mudam a nossa química interna. Eles nos lembram que, apesar de qualquer desafio ou cansaço, a vida ainda é gentil em muitos detalhes.
Treinar o olhar para as microfelicidades é um exercício de protagonismo. É você quem decide, no meio de um dia corrido, onde vai colocar a sua atenção. Quando escolhemos notar o que é bom — por menor que seja —, estamos fortalecendo a nossa resiliência e a nossa capacidade de sentir prazer na vida real, e não apenas na vida idealizada.
Limpando as lentes na terapia
Muitas vezes, o estresse e a ansiedade agem como uma névoa que nos impede de enxergar essas cores no cotidiano. Ficamos tão focados no que falta ou no que é difícil, que passamos direto pelos pequenos tesouros do dia.
A terapia ajuda a limpar essas lentes. O processo terapêutico nos devolve a capacidade de presença, permitindo que a gente volte a pescar alegrias nos dias comuns. Afinal, a felicidade não precisa de grandes palcos para acontecer; ela gosta mesmo é de morar na nossa rotina.
