Insondável Alma Humana

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Margitt casou-se com Greg contra a vontade dos pais, que podiam não ser ricos, mas eram bem de vida. Tinham casa confortável, dois carros e um rendimento suficiente para as extravagâncias e vaidades da mãe.

Margitt era inteligente, bonita e formada. Assim, seus pais sonhavam com um “bom partido” para a filha. De preferência médico, engenheiro, advogado. Casamento no civil e religioso, com vestido de noiva e festa.

A moça sabia impor sua vontade, quando necessário. Apaixonou-se por Greg – um simples professor – e a má vontade dos pais não foi empecilho para o casamento fora dos padrões da época: cerimônia simples, só no civil.

Os primeiros cinco anos foram tempos relativamente tranqüilos, apesar da implicância dos pais. Que não perdiam oportunidade para manifestar seu desgosto com o casamento, deixando claro que ficariam imensamente felizes no dia em que a filha “chutasse aquele traste”.

Margitt parecia ter confiança inabalável na alma humana. Acreditava que a humanidade era – na sua imensa maioria – essencialmente boa.

Pablo resolve separar-se de Drica e sai de casa. Os dois – apesar de mais velhos – eram amigos próximos. Margitt e Greg acompanham as brigas, os desaforos e as picuinhas que têm origem no inconformismo de Drica. Dois anos depois, o divórcio ainda não tinha sido homologado, Pablo arruma namorada. O novo casal mora em casas separadas, mas tem relacionamento estável; viajam e sonham o futuro juntos. Pablo sofre um infarto e é internado em UTI. Passa dias inconsciente. Drica apresenta-se no hospital como “mulher legítima” e proíbe as visitas da namorada de Pablo. Invade seu apartamento, revira tudo, joga fora as “lembranças” da “outra”, da “bisca”, toma posse dos dólares guardados para férias na Europa.

Greg comenta o caso com Margitt. Diz estar estarrecido com o comportamento mesquinho e criminoso de Drica. Margitt a desculpa:

– Que nada, você está implicando e aumentando o caso porque nunca gostou dela.

Marion tinha vida boa. O marido ganhava bem e ela se dava ao luxo de ajudar toda a família. Principalmente Rosicler, a irmã mais nova, chegando mesmo a comprar carro e casa para ela. Marion, Rosicler e os maridos das duas eram amigos de Margitt e Greg. Marion enviúva. Acostumada ao dinheiro fácil, não soube se adaptar aos novos tempos e continuou a ajudar a família. Tempos depois, é ela quem precisa de ajuda. Que lhe é negada pelos irmãos; principalmente pela irmã mais nova, aquela a quem mais tinha ajudado.

Uma vez mais, Greg comenta o caso com Margitt. Diz estar estarrecido com o comportamento mesquinho e injusto de Rosicler. Margitt também a desculpa:

– Que nada, você está implicando e aumentando o caso porque nunca gostou dela.

Márcia é a melhor amiga de Margitt. Está namorando um sujeito há dois anos; namoro sem graça, não ata nem desata e acaba de descobrir uma verdadeira paixão. É isso, está apaixonada. Aconselha-se com a amiga. “Melhor abrir o jogo, contar tudo; ele é um sujeito legal, vai entender”, sugere Margitt. “Por que não uma desculpa?”. Márcia receia as reações do namorado. Acaba seguindo os conselhos da amiga. No dia seguinte confidencia: “Foi um desastre, me chamou até de vagabunda, só não me bateu porque a briga foi lá em casa e meu pai podia aparecer.”

– Que nada, você está aumentando o caso. Vai ver é porque nunca gostou dele – justifica Margitt.

Nos anos seguintes, o relacionamento de Margitt e Greg desanda. A mãe e o pai de Margitt não perdoam: “Não disse? Não foi por falta de aviso! Sabia que ele não prestava. Melhor mesmo separar-se logo. Sem ele você vai levar uma vida muito melhor…”

Margitt reconhece que não há mais amor e motivos para permanecerem juntos. Mas vão levando a vida e sendo levados por ela.

Greg aparece com novidade. Arrumou trabalho no Rio de Janeiro. Quer aproveitar a oportunidade para colocar ponto final no casamento, começar vida nova. Imagina que a separação será consensual, sem dramas, até porque não tinham mais nada em comum.

Surpreso, não entende a reação de Margitt. Constrangido, descobre uma mulher que não conhecia. Margitt pede desculpas por tê-lo tratado mal, por não tê-lo defendido quando os pais o maltratavam, promete mudar, voltar a amá-lo, fazer tudo que ele quisesse; só pedia que não a abandonasse…

Mais surpreso ainda ficou na manhã seguinte ao constatar o verdadeiro abismo da insondável alma humana. Os pais de Margitt aparecem cedo, viajaram mais de 100 quilômetros para pegá-lo ainda em casa. A mãe inicia o tiroteio, raivosa como sempre:

– Finalmente você conseguiu!

– …

– Não era o que “você” queria? Separar-se da minha filha? Não tem vergonha de desmanchar um casamento assim sem mais nem menos?…

Histórias da insondável alma humana…

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